sexta-feira, 18 de novembro de 2011

EFÊMERA

Eu, que de diversas formas, havia beijado bocas de corações destinados a serem despedaçados por mim, agora me via solta por entre jardins de rosas ressecadas, terra enlameada, sol que não aquecia, apenas queimava pele pálida. Eu, que tinha desacreditado na capacidade do meu coração se reerguer sobre a morte da minha alma, agora me encontrava diante do meu próprio sepulcro com um sorriso pintado, feito esses de palhaços, esperando a guarnição atrapalhar meus sentimentos. Eu, que de alguma forma, tinha sufocado meus sonhos e transformando-os em pesadelos intensos, agora desenhava arco-íris calada, sobre a rocha que antes serviu como palco para meu pulo. Eu, que indiscretamente, tinha corrido nua por entre quintais e ruas, agora costurava minha própria camisa de força para afastar-me das loucuras que espalhei, um belo dia, pelo mundo. Eu, não me recordando muito bem, tinha escolhido roubar estrelas de olhares alheios, me encontrava criando galáxias internas, à espera incontrolável das minhas íntimas explosões. Eu, que ainda guardava memórias em diários escondidos, agora escrevia o romance dos meus olhos em minha proteção epitelial, sem ponto-final, travessão ou reticências, tudo tão sutil como a morte em meio ao sono tranquilo. E assim se foi... Eu, mulher de ninguém, sem ser dona nem mesmo de mim, agora me sentia uma imperatriz... Imperatriz das minhas águas (lágrimas escolhidas). 


- Faah Bastos

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