sábado, 19 de novembro de 2011



Nós havíamos brigado. Tinha sido a primeira vez, assim como tudo em nossa vida, não sabíamos como era, como deveria ser, o que sentir. Ficamos pouco mais de cinco ou seis prolixos dias sem nos olhar, sem trocar uma carícia, um sussurro qualquer; com repulsa que ardia na pele e uma febril cobiça de corpos, que nos faziam viajar por entre sonhos majestosos. Ela passava como um fantasma pelas ruas, sem distribuir brilho, nem vida, com passos pesados de pássaro agora sem asa e obrigado a caminhar entre os humanos. Eu, por minha vez, mais triste do que calvário de virgem, cabisbaixo ficava escorregando entre as labaredas do destino, rindo pelas lágrimas insanamente internas providas do meu coração despedaçado e meu firme ego. Éramos estranhos inexplicavelmente apaixonados um pelo outro. Desconhecidos de olhares.
As noites eram as mais difíceis, quando o mundo inteiro se colocava em silêncio, e eu apenas podia ouvir o choro do meu coração que implorava por sua volta, pelo retorno da primavera que não cedia aos meus chamados. Envolvia-me em cobertas com seu cheiro, o sabor calmo das tuas palavras se transformando em beijos, a sensação do teu doce aroma valsando diante a minha epitelial fraqueza. As recordações das longas horas de amor carnal, que atropelavam as impossibilidades da realidade, e silenciava uma multidão de iguais que caminhava um ao lado do outro sem entrelaçar as mãos. Quebrávamos o sistema da palavra neutra, das carícias programadas, dos recitais sem sentimento, porque simplesmente nos afogávamos com roupa e tudo, sem se preocupar com a identidade de nós dois, dos nossos beijos, do nosso amor.
E nós havíamos reconciliado o amor. Um sorriso, uma conversa sem prolongamentos, uma pressa para ter o quanto antes, o que um dia fora tomado pelo vento, pelos dias, pelas horas, pelo tempo. Logo em seguida, uma lágrima singela, envergonhada, no canto dos olhos sussurrava um “perdoa-me”? E todas as paredes de afastamento se quebravam para dar espaço ao silêncio, aos pensamentos que vagavam soltos, livres, se misturando com as possibilidades, delineados por lápis de cor em uma folha branca, desenhando casas, rios, árvores e tormentas; um menino que corria sem pretensões, uma donzela que segurava uma boneca de pano, um pássaro negro, uma rosa, um cravo, uma ciranda... E tudo passou, até mesmo o silêncio. E os olhos voltaram a ser fieis conhecidos para todo o sempre, enquanto durar. E nós havíamos amado mais, permanecendo amando. Regressado ao amor, não deixando fugir. Errado, ainda errando, mas por amor.

- Faah Bastos

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

CARAVELA

Teu amor chegou
Como caravela em meu porto.
Escravocrata como sou
Não alforriei o seu amor.
Nesses grilhões de medos,
Acorrento minha dor.
Nunca mais serei solidão,
Ó minha divina flor.
Contigo crio cafezais de estrelas,
Faço desse conjunto epitelial,
Nossa canção de liberdade
De dois apaixonados marginais.

- Faah Bastos

EFÊMERA

Eu, que de diversas formas, havia beijado bocas de corações destinados a serem despedaçados por mim, agora me via solta por entre jardins de rosas ressecadas, terra enlameada, sol que não aquecia, apenas queimava pele pálida. Eu, que tinha desacreditado na capacidade do meu coração se reerguer sobre a morte da minha alma, agora me encontrava diante do meu próprio sepulcro com um sorriso pintado, feito esses de palhaços, esperando a guarnição atrapalhar meus sentimentos. Eu, que de alguma forma, tinha sufocado meus sonhos e transformando-os em pesadelos intensos, agora desenhava arco-íris calada, sobre a rocha que antes serviu como palco para meu pulo. Eu, que indiscretamente, tinha corrido nua por entre quintais e ruas, agora costurava minha própria camisa de força para afastar-me das loucuras que espalhei, um belo dia, pelo mundo. Eu, não me recordando muito bem, tinha escolhido roubar estrelas de olhares alheios, me encontrava criando galáxias internas, à espera incontrolável das minhas íntimas explosões. Eu, que ainda guardava memórias em diários escondidos, agora escrevia o romance dos meus olhos em minha proteção epitelial, sem ponto-final, travessão ou reticências, tudo tão sutil como a morte em meio ao sono tranquilo. E assim se foi... Eu, mulher de ninguém, sem ser dona nem mesmo de mim, agora me sentia uma imperatriz... Imperatriz das minhas águas (lágrimas escolhidas). 


- Faah Bastos